A nossa heroína Maria das Dores está em grande sofrimento, com as duas mãos encostadas ao ventre.
MARIA DAS DORES: Ai, meu Deus, que eu vou morrer. Eu não aguento.
EULÁLIA: Oh mulher, tu que tens? Vais a correr para a casa de banho de cinco em cinco minutos.
M.D.: Nem me digas nada. Doem-me as tripas, ando de soltura, vou à retrete e cago de esguicho.
E.: Terás comido alguma coisa que te fez mal?
M.D.: Talvez fossem os bolos que comprei na pasteleria da esquina. Lá, vendem bolos retardados a preço de saldo. Eu vi ontem o papel na porta e resolvi comprar, para poupar um bocadito.
E.: "A poupa tanto poupou que fez um ninho de merda", nunca ouviste dizer?
M.D.: Já, mas a gente agora tem que aproveitar todas as migalhas. O dinheiro já não era muito quando comprávamos em escudos, mas depois que veio o "oiro" ainda pior.
E.: É verdade, o comércio aproveitou-se do câmbio para carregar nos preços. Sabes que eu ouvi na televisão um indivíduo a dizer que vamos sair do euro?
M.D.: Não, mas eu não me importava de passar outra vez ao escudo. Antigamente, com uma nota de cinco contos ia ao mercado e trazia quase a praça inteira. E ainda me sobrava para ir tomar o pequeno-almoço ao café. Agora, com cinquenta "oiros" não trago quase nada.
E.: É o caralho! Isto da C.E.E. é tudo muito bonito, mas é só para encher o cu aos grandes e foder os pequenos.
M.D.: Bem fiz eu em guardar alguns escudos e não os ter trocado todos, assim já os vou poder gastar outra vez.
E.: Oh filha da puta, isso que tu guardaste já não vale um tostão furado...

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