terça-feira, 24 de abril de 2012

25 de Abril

Após vários pedidos (alguns desesperados), o autor decidiu presentear os seus leitores com mais uma história da fábrica. Desta feita, inspirada em factos verídicos.
Então é assim...

Corria a tarde tranquila de mais um dia de laboração na fábrica, ultimamente mais tranquila do que nunca por conta da falta de encomendas. A nossa heroína Dores num largo bocejo, quase a dar com a testa na máquina. A nossa heroína Eulália coçando o "fandango", como forma de quebrar a monotonia.
De repente, gera-se um enorme bulício nas restantes operárias da fábrica, que surpreende as nossas quase anestesiadas heroínas.

EULÁLIA: Foda-se, que banzé vem a ser este? Será que esta merda está a pegar fogo?
MÁRIA DAS DORES: Ai minha Nossa Senhora do Sameiro nos acuda! Há fogo? Onde, onde?
E: Deixa-me lá ir ver, caralho! Que bicho terá mordido naquelas putas?

A nossa heroína Eulália ausenta-se momentaneamente do seu posto de trabalho, a fim de se inteirar da situação e poder resolver a ansiedade que vai tomando conta da nossa heroína Dores.
Passado pouco tempo, regressa com novidades frescas e sem um intento de disfarçar um sorriso de escárnio.

E: Oh caralho que me foda... Isto só visto que contado ninguém acredita.
M.D.: Mas afinal, que raio se passa aqui? A fábrica pegou mesmo fogo?
E: Qual fogo, qual caralho. Diz que está lá fora um corno de pistola em punho!
M.D.: Cruzes credo!
E: Descobriu que era encornado e espera que a mulher saia para ajustar contas. 
M.D.: Mas se é apenas um corno que está lá fora, porque estão cá dentro tantas mulheres em pranto?
E: Oh filha da puta, estou a ver que vou ter de te fazer um desenho...

A situação permaneceu tensa até chegar o patrão a dar dois berros, ameaçando não pagar o salário e até se confirmar que afinal não havia corno nenhum de pistola em punho. Tudo não passara de um boato, um falso alarme.
E assim as operárias puderam abandonar a fábrica tranquilamente no final da jornada laboral. Mas não ganharam para o susto.

"O que tem isto a ver com o 25 de Abril?", perguntará o leitor espantado. A resposta do autor é: absolutamente nada.



sexta-feira, 23 de março de 2012

O ovo no cu do galo

A fábrica é um sítio antinatural. Foi criada pelos homens para criar produtos feitos para os homens e para servir os homens. E com a venda dos produtos da fábrica, amealham riqueza os homens.
Em suma, a fábrica é propriedade dos homens. Mas, quem trabalha na fábrica são mulheres, como estas nossas duas heroínas, padecentes de iliteracia, tecnicamente analfabetas.
Mas nem a escassez de conhecimento e vocabulário diverso lhes trava a língua sempre afiada, com prejuízo para a produtividade e o bolso dos homens que governam o país e a fábrica.

MARIA DAS DORES: Oh minha puta de beira-de-estrada, que tens a cona cheia de chatos e o cu cheio de hemorróides... diz-me lá com toda a sinceridade: gostas de bola?
EULÁLIA: Oh grandessíssima toura que foste parida por uma vaca turina e és filha dum boi com uns cornos que parecem duas traves de madeira, que caralho de pergunta tu me fazes?! Parece que andaste a beber, que se não estás borracha perdeste o tino de vez. Então, poderei eu gostar dessa praga da nossa sociedade?
M.D.: E porque não? Há tantas mulheres que hoje em dia vão à bola, algumas até são famosas como aquela velhota russa.
E.: Essas mulheres das duas uma: ou não têm que fazer em casa ou não têm noção daquilo que são.
M.D.: Mas porque razão dizes que a bola é uma praga que nos rogaram a nós, mulheres, que não vamos à bola com a bola?
E.: Porque a bola é uma forma de os homens se perderem e esquecer as suas obrigações. 
M.D.: Obrigações de quê?
E.: De machos, ora que esta! Enquanto eles andam a correr para trás e para a frente, atrás duma bola, há mulheres em casa a contorcerem-se com o dedo enfiado entre as pernas, a pedir que algum macho as cubra.
M.D.: Achas tu que as mulheres dos homens que jogam a bola são como cadelas com o cio, ao passo que eles são todos uns bois que não são de cobertura?
E.: É vê-los, por vezes, no meio do campo a escornarem-se uns aos outros, enquanto as mulheres ardem de desejo.
M.D.: E aqueles que vão à bola só para ver essa tourada?
E.: Esses ainda são piores. Qual é a piada de ver os outros a correr atrás da bola, gritarem feitos malucos, discutirem exaltados uns com os outros ao ponto de chegar, por vezes, a irem às trombas uns dos outros? Tudo por causa duma porcaria duma bola?
M.D.: A bola é redonda e, talvez, esteja aí a piada. 
E.: Pois, eu não acho piada nenhuma.
M.D.: És tu e os outros, que foram uma noite a Barcelos ver a bola, a contar com o ovo no cu do galo. Bem que se foderam...


sábado, 10 de março de 2012

Seca extrema

Adiantada vai a manhã de mais um dia de laboração na fábrica. Lá fora o sol teima em brilhar para consolação das almas sofredoras. E a nossa heroína Eulália está pensativa.


MARIA DAS DORES: Oh filha da puta, ainda hoje não te ouvi dar um pio nem dar um traque. Em que caralho tu tanto pensas?
EULÁLIA: No meu homem, que tem andado nos últimos tempos pela estranja. Este mês vem para cá.
M.D.: Pois, tem lógica. Março é o mês de quando chega o cuco.
E.: O cuco chega e desova no ninho que não é dele. No fim da quentura lá vai ele para donde veio. Mas o cuco do meu homem vem para ficar.
M.D.: Mas porquê, sentiu saudades da tua pardelha?
E.: Não, o trabalho foi-se e ele agora tem de regressar.
M.D.: Isto está mesmo fodido. E não é só aqui, mas também lá por fora.
E.: Que vou fazer eu à minha vida? Somos três bocas em casa a comer com dinheiro de três salários. Agora seremos quatro com o dinheiro de duas fainas apenas. É que trabalho na construção para ele, em Portugal não há. Na construção o que sobra são empresas a fechar.
M.D.: Tudo se há-de remediar. É como esta seca que teima em não nos deixar. Esperamos pela chuva e ela, enfim, vai chegar. Mais cedo, ou mais tarde.
E.: Só queria ter um pedaço dessa tua tranquilidade. Nada te parece preocupar. Nem a crise, nem a seca.
M.D.: Oh mulher, não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe. Não temos outro remédio que não esperar. Aliás, a nossa vida é, afinal de contas, uma longa espera que começa logo ao nascer: a espera pelo dia em que vamos morrer.
E.: Foda-se, que prosa tão deprimente a tua. A tua cabeça é como um campo árido onde não chove há imenso tempo. Nem te vale de nada esperar pela chuva, porque dentro de ti não há terra fértil para dar o que quer que seja. 


  

quinta-feira, 1 de março de 2012

Violência doméstica

O sol nasce e segundo dizem os sábios, é para todos. Mas a sombra dos pinheiros e eucaliptos sobre a fábrica refutam essa sabedoria. A luminosidade na fábrica não provém do astro rei, mas das lâmpadas fluorescentes, sob a qual a nossa heroína Dores trauteia uma melodia.
MARIA DAS DORES (trauteando): Lá, lá, lá, lai-a, lá, lá-rá, lá, lá-ra-ia..."a ternura dos quarenta, não tem conta, nem medida".
EULÁLIA: Eh caralho! Temos fadista, ah foda-se! Que raio de musicola estás para aí a cantar? Pareces a minha batedeira quando estou a fazer bolos.
M.D.: Oh filha da puta, não conheces esta música porque não é do teu tempo.
E.: Pois não, ainda não cheguei aos quarenta. E quando chegar espero que não seja com essa tristeza. Mas ainda não me disseste quem é o autor dessa canção.
M.D.: É do Paco Bandeira.
E.: Quem? Aquele boi do caralho que enxerta a marmita às mulheres? Filho da puta, havia de ser comigo. A primeira vez que me levantasse a mão partia-o todo.
M.D.: Até parece que nunca levastes duas putas no focinho do teu homem. E bem que as merecias, à custa das asneiras que fazes. Coitado dele, que é corno.
E.: A mim, o meu homem nunca me encostou a mão nas ventas. Tu é que és uma begueira, porque consentes que o bruto do teu homem te foda a focinheira.
M.D.: Que hei-de eu fazer? É a minha sina. Mas, se formos a ver, o meu homem raramente me bate. O pior é naqueles dias em que chega a casa com os copos.
E.: Por haver tantas mulheres conformadas como tu, é que vemos tantos casos de violência doméstica. Há mulheres que são maltratadas toda a vida e não dizem nada. Algumas acabam mortas de tanta porrada que levam.
M.D.: O meu homem, no fundo no fundo é boa pessoa. Eu às vezes também sou filha da puta para ele. Não trato da minha sogra como deve ser, às vezes digo asneiras e ele fica fodido. Afinal de contas, a puta da velha é mãe dele. Então, enerva-se e lá vem "fruta".
E.: Eu até me dá "gómitos" estar-te a ouvir, ainda defendes o cabrão do teu marido.
M.D.: Oh mulher, nós temos que aceitar as coisas como elas são. O homem foi feito para mandar e quem manda pode.
E.: Estás enganada! O homem foi feito para nos dar paulada na cona e não para nos dar paulada na cabeça. E mesmo para dar paulada na cona, só deve ser quando nos apetecer.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Correios de droga

A nossa heroína Eulália, há uns dias para cá, apresenta uma tez amarelada e um ligeiro relevo na região do ventre. Esta recente mudança de aspecto causa a admiração da colega, a nossa outra heroína Maria das Dores.
MARIA DAS DORES: Oh minha badalhoca, que se passa contigo? Tens o focinho "marelo" e o bandulho inchado. Não me digas que estás prenha.
EULÁLIA: Tu deves estar bêbeda. Como é que eu posso estar grávida se o meu homem há mais de um ano que não regressa à base? Anda só pela estranja a trabalhar no duro para amealhar dinheiro. Do divino espírito santo não pode ser, que esse só deu semente uma vez e já foi há mais de dois mil anos. E que conste não voltou a meter-se noutra igual.
M.D.: Não digas blasfémias nem te faças de santa, puta! E as quecas que dás com o Sr. Dr.? Não és tu quem desejava parir um bastardo do velho?
E.: Isso queria eu. Mas acho que o leite do jarreta já deve estar estragado. E mesmo que não estivesse, o pelintra quando se vem só verte um pinginho. Mal dá para me sujar a cona, quanto mais para me fazer um filho.
M.D.: Então que caralho tens tu?

E.: Estou presa dos intestinos. A minha tripa cagueira deve ter dado um nó e agora a minha barriga está inchada como o papo dum sapo. Isto deve ser uma herança, porque quase todas as mulheres da minha família têm dificuldade em evacuar.
M.D.: E não tomas nada para resolver isso?
E.: Já experimentei as mezinhas habituais e um chá que comprei na farmácia, sem sucesso. Vou à cagadeira, puxo, faço força e nada. A trampa teima em não sair.
M.D.: Estavas bem fodida se fosses correio de droga.
E.: Se fosse correio de droga? Que puta de merda vem a ser essa?
M.D.: São aquelas pessoas que transportam droga de um lado para o outro. Engolem-na em saquinhos, fazem a viagem e depois cagam-na, para ser vendida.
E.: Que nojo! Onde ouviste contar essas histórias?
M.D.: Nos noticiários e nos jornais não se fala de outra coisa. Essas pessoas, os correios de droga, chegam a ganhar uns milhares de "oiros" para fazer esse transporte. O problema é se os sacos de droga rebentam, ou se são apanhados pela polícia. Estes dias enjaularam uma rapariga da televisão que entrou num esquema desses.
E.: Puta que pariu! Então, explica-me lá uma coisa: a pessoa engole a droga e depois tem que a cagar. E se não consegue?
M.D.: Os traficantes não perdoam. A droga tem de sair de qualquer maneira. Se não for a bem, tem que ser a mal.
E.: Por exemplo: se eu fosse um desses correios e tivesse engolido a droga, com esta prisão de ventre não conseguia cagar. Como é que ia ser para a retirar?
M.D.: Abriam-te a barriga e tiravam-na fora, como se fosses a parir um filho por cesariana.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Direitos adquiridos

O dia amanhece alvoraçado na fábrica. A nossa heroína Maria das Dores está em pranto.
MARIA DAS DORES: AQUI D'EL-REI, AQUI D'EL-REI! Ai que me roubaram o dinheiro e eu não o acho no meu bolso!
EULÁLIA: Eh filha da puta... Não deixaste cair nada quando te estavas a trocar no vestiário? (Mostra-lhe um maço de notas de cinco euros engelhadas.)
M.D.: Dá cá isso, caralho, que é meu. Ganhei-o a comer o pão que o diabo amassou.
E.: Ai sim? E que vais fazer com esse fruto do teu suor?
M.D.: É para pagar as quotas do sindicato.
E.: E tu ainda dás dinheiro para esses cabrões, que só sabem fazer greves e manifestações?
M.D.: Então não haveria de dar? Quem mais pelos nossos interesses há-de lutar? Os patrões são uns filhos da puta, só olham para o umbigo deles e não se cansam de ver o bandulho a crescer. Os políticos são outros que tais, é só promessas e mais promessas, mas não querem saber do povo que trabalha. É só carregar, carregar, com impostos a pagar. E agora dão a desculpa da troica.
E.: E tu achas que os sindicalistas são melhores? Já alguma vês os viste aqui na fábrica, a falar com o cornudo do nosso patrão a exigir aumento dos nossos salários? Nunca. Só os vês a distribuir propaganda comunista e a pedir-nos para fazer greves.
Eles aparecerão um dia à porta desta fábrica, quando estiver à porta da falência. Nessa altura, em vez de ajudarem a resolver o problema, ainda a enterrarão mais, para depois culparem os governantes pelo encerramento.
M.D.: Cruz, credo! Minha nossa senhora do Sameiro, bate três vezes na madeira. Que puta de ave agoirenta tu me saíste. Nós somos a força trabalhadora, sem nós a fábrica não existiria. E além disso, nós temos os nossos direitos que estão consagrados na lei!
E: Raios te partam, caralho! Tu andas mesmo a dormir. A lei agora está toda do lado dos patrões. Foram esses filhos da puta dos políticos, obrigados pela troica, que deram a volta ao texto.
Agora, trabalhas e é se queres. E acabaram-se as horas extras pagas a três vezes e mais os Sábados e mais os dias de férias de bónus. E se não gostas, "a porta da rua é serventia da casa".
M.D.: Como pode isso ser? Então e os nossos direitos? 
E: Os nossos direitos agora resumem-se a um: queres trabalhar, trabalha. Senão levas um chuto no cu e não levas mais nada.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Sexo anal

A nossa heroína Eulália aproxima-se do posto de trabalho. Vem com um andar desconchavado, o que provoca um comentário de admiração da colega, a nossa outra heroína Dores.
MARIA DAS DORES: Oh minha parraqueira, vens a mancar? Cagaste nas cuecas ou será que te deram um andar novo?
EULÁLIA: Olha, sabes uma coisa: vai gozar com a grande puta que te pariu.
M.D.: Calma, mulher. Estou a brincar contigo, não precisas de te exaltar. Conta-me lá o que tens?
E.: Não é nada.
M.D.: Não é nada? Quem nada não se afoga. Conta-me lá, somos amigas ou não somos?
E.: Ai mulher, então chega-te aqui à beira porque as paredes têm ouvidos. Ai que vergonha a minha. Estou assim porque ontem perdi a virgindade.
M.D.: Oh que caralho, estás a gozar comigo. Foda-se!
E.: Não estou nada! Ontem deixei de ser virgem, mas não da cona, que já tinha sido esgaçada quando tinha catorze anos. Refiro-me ao cu! Ontem, pela primeira vez na puta da minha vida fui enrabada.
M.D.: Então, tu agora para além de encornares o teu homem, ainda te dás a essas badalhoquices?
E.: Foi ao engano! Ontem, como de costume, fui fazer a limpeza ao consultório do Sr. Dr.. E como de costume, o velho estava assanhado. E como de costume, tive que o aturar. Ele virou-se para mim e disse: "põe-te de bruços que hoje quero ir-te pela traseira".
M.D.: Que bonito...
E.: Então eu coloquei-me de bruços, ele tirou-me as cuecas e começou-me a esfregar a piroca na minha bujega. Estava dura como granito. Do Viagra, claro, que se não fosse do comprimido era preciso um guindaste para erguer.
M.D.: Sim, e depois?
E.: Depois, quando eu pensava que ia espetar a sarda na minha parreca, eis que ele num movimento brusco a enfia pelo meu cu adentro... Oh mulher, até vi estrelas!
M.D.: Chiça! E doeu?
E.: Se doeu! Parecia que me rasgava toda por dentro. Eu gritava para ele parar e ele ainda me dava com mais força. Parecia aquele arquitecto que fez os estádios todos coloridos. E assim fui eu enrabada a sangue-frio.
M.D.: O teu Sr. Dr. é como os nossos Governos. Primeiro fazem-nos cócegas e depois sem a gente contar, saltam-nos na bolha.
E.: Tu achas que eu devia apresentar queixa por violação?
M.D.: Não, acho é que deves andar com o cagueiro sempre bem lavado, porque se ele experimentou e gostou, vai querer mais!